Terça-feira, Abril 10

El caballo sediento bebe de cualquier agua,
el pájaro hambriento come de cualquier grano.
Al hombre mozo y fuerte a quien acosa la miseria,
¿qué otra cosa le queda sino hacerse bandido?


Wu Ki
..................................................................

Sexta-feira, Novembro 4

Quinta-feira, Novembro 3

Progresso

Não gostar da palavra capital não é uma versão politica.
Pode ser o verso da palavra saudade numa terra de poetas.

Quarta-feira, Novembro 2

três

Aquele velho, quando eu era pequena, agarrava-me toda, nas fotografias, e ria ria grande como aquele ar que manda na luz e nas sombras que ficam caídas no chão, as folhas das árvores do Outono à primavera, umas vezes verdes ou assim assim, e aquela bela calçada, parada, branca, e os sorrisos feitos para a quadricula, o assim-assim dos quadradinhos de calcário,

e os trabalhadores ao sol, as calças usadas, como as dos padeiros, mas pelo sol das tardes, quente, e o suor que cai para regar a sombra das folhas no chão, e os fios que desenham o motivo, as pedras azuis e brancas e amarelas, num montinho, a montanha a lá, e os fios, calos, com cores e fumo.

Os joelhos das calças no chão, e as pontas dos sapatos antigamente com o pó, o pó dos dias. E as árvores, o sol nesta cidade, que nem é preciso, eu sei, mas as cores do chão e um bocadinho desta terra que não é castanha, é pó.

Passa o som nas passadeiras, enquanto os joelhos furam as calças e as unhas, os sapatos. As mãos com o sangue ligeiro das plantas e o ar que não se respira inspira, nada, e como tudo isto me lembra, oh lembra-me sempre a minha morte ou a tua, que são a mesma coisa num dia de calor.

As rodas entram pela cabeça, esquecem os sapatos, as camisas, a graxa para os sapatos, e os filhos e tudo, as mãos e nas pontas, os dedos, a máquina, o carro, os cardiologistas.

Eu paro, eu paro para ouvir a rua. Empoleiro-me nos parapeitos, espreito as janelas do prédio que se segue ou o barulho das caixas de registar da loja em baixo e esta praceta, parecendo que não, já não é aqui, é noutro sítio, eu sei, onde já não estou para abraçar mais ninguém ou dar aos pássaros como se estivesse no Rossio e todos fossem pombos ou milho.

Aquele velho, quando eu era pequena, amarrotava-me o debrum de renda inglesa dos vestidos, agarrava-me, os dedos roxos, e sorria para a fotografia, agarrava-me como se eu fosse uma árvore para crescer nos braços. E eu não.
Fumo fumo fumo para ver se morro mais depressa.

Aproximei-me da janela para ver do desiquilibrio das alturas entre a minha vontade e o meu corpo desfeito e velho como uma planta murcha lá em baixo. Não chega.
Uma das vantagens do progresso é esta equitativa disposição de possíveis, Os prédios altos facilitam as grandes quedas, os carros estacionados amortizam-nas, os seguros pagam os estragos.

Vou la abaixo ver da gravidade da calçada, da sua organização quase perene. Quadrados brancos, quadrados amarelos. Alcatrão que pode fazer mal aos joelhos.

Os cigarros calcam-se como se fossem bichos.
A vida quando se dá é necessariamente porque se tem de morrer.
Não escrever quando é necessário, dá uma dor fina no antebraço.

Sente-se a veia que liga os ossos ao musculo ao pegar na caneta, e mesmo quando não se está a pegar nela, mais até assim, ou de outra maneira. Um hábito, um tira teimas do corpo contra as variações da realidade, as contradições que pudemos resumir até ao essencial, enumerados os princípios no orgulhoso silêncio da inteligência.
Pode sentir-se o pulso da escrita, a afirmação física da tentativa pessoal, que arruma por ordem de aproximação os objectos do intimo, do que está ainda para lá, ou é realmente isso mesmo.

Penso penso sempre, e sinto o pulso.


sabemos cada vez menos de pontuação, o sustentáculo sempre teve essa mania de impor o seu certo estilo de limitações na vulgaridade da linguagem,

De tudo isto as escondidas. por entre os espaços , tem-se falado.

As pilhas de panelas parecem livros.
Os alimentos cozinham-se a vapor como os comboios mas não sofrem de horários.
A boca serve para mastigar mas as palavras saem inteiras.

Não se pode encontrar descanso antes de se encontrar uma espécie de solução soluço.

So-lú-vel

O sol na fotografia parece-me que é só luz.

Às vezes na rua, no meio dos carros e demais parafernalia velocípede, vejo um rabo que dança , como se uma serpente habitasse o lado de dentro das calças para não dizer cuecas, que podia parecer ordinário. Eu , eu escrevo para que se arquive e depois vou lavar a loiça. Estragar o verniz das unhas, que gosto tanto de pintar.
Num dia normal, no meu bairro, as velhas ficam à janela. Apoiam a cara o cotovelo no parapeito.
E eu passo, porque devo passar.

Atravesso a linha do comboio que isola esta gente, com pulseirinhas de prata doirada no pulso e cortininhas de chita e pó nas janelas, de tudo o que é novo e tão direito.

Ela pensou - Eu para ser eu preciso de uma caneta e de um papel talvez não.
E atravessou a linha que a isola dentro do bairro, dentro de casa de de dentro .

a vida ao que parece compõe-se essencialmente de coisas pequeninas
como berloques e biblelots: e isto não é uma contradição é sim uma grande gentileza.

Segunda-feira, Dezembro 27

viagem ao fim da noite

Entrei no táxi porque me disseste para não chegar atrasada. Preferia ter ido a pé porque nunca me senti bem em esticar a notinha a alguém na noite de natal, faz-me sentir embaraçadamente superior, tenho vontade de pedir desculpa: Desculpe lá esticar a nota que eu tenho porque sou feliz também no natal, a si, que para aqui anda com ou sem família à espera,para me servir em troca de dinheiro. Entro no carro e digo: Bom Natal. Não me interessa a quadra, nem a um bom católico consigo dizer a palavra sincera e educada.
Imaginem: entrava e dizia: leve-me já para o bairro alto, eu - rapariga burguesa,especial de corrida, não quero apanhar o metro e chegar atrasada. O metro é debaixo da terra, não me apraz, tenho dito. Coisas que andam debaixo da terra, como os bichos, mas só para poupar tempo, que é dinheiro por aqui. Mas quem quer falar dessas coisas no dia em que nasceu o menino jesus? Quem quer ouvir? Nem os meus amigos, nem tu- que ouves tudo o que tenho para dizer, ainda que cheio de hesitações, porcarias cada vez menos pendentes, vocábulos incompletos, asneiras. Podiamos ter discutido a problemática anarquista, o egoísmo de stirner, a propriedade de proudhon, mas nem tu sabias que livro trazia eu na mala; que livro gostaria de ter lido no táxi, em silêncio, se fosse capaz de negar uma simpática conversa a um motorista que queria palrar sobre a infelicidade de 40 anos a alombar com tudo aquilo contra o qual lutou quando era novo como nós e de como o sentimento inteiro lhe cabe nesta noite e lhe coube na anterior. Bebeu um sumo da loja dos trezentos que lhe fez mal, o enjoou, não há fiscalização e tudo faz mal ao corpo. Foi a uma boite de streaptease, não me disse qual, nada de acordo com a data, corpos puxados de quarenta anos de fodas estudadas e mais de um litro de água por dia para mijar a celulite e desenrugar a cútis de senhora. Porque tanto lhe faz que a comida esteja insossa.Só reclama quando tem sal a mais disse que dantes não era assim saboreava os temperos. Agora nem do gosto, gosta mais. Disse-lhe eu não gosto de prendas, o meu pai queixou-se que não lhes dou importância, que as perco, que as deixo sempre ao deus dará e eu eu repliquei o vosso deus não me dá nada, estou farta de abrir as prendas que o pai natal deixou para a vizinha. Tenho essa impressão, o tipo engana-se sempre na chaminé.
Mas contigo. A ti. Não digo nada também. Nem numa noite como esta em que o mundo inteiro vagueia em farrapos nas ruas do capital , espreitando as montras das lojas de aparelhos televisivos a pensar no que fazer no ano novo. Oxalá acabasse o petróleo, disse-te entre dentes. cala-te lá com teorias mutualistas, conta as estrelas mariana,replicas tu.
Penso - como se fala com os amigos? É que, até numa noite como esta, em que todos acordámos juntos ao pé da mangedoura do outro rapaz doirado,as palavras não me deixam em paz e a ti, que estudas leis, só te quero ver no desemprego.

Terça-feira, Dezembro 21

Alice goes porn

Voltando do seu alegre passeio pelas desgraças do país, Alice, viciada como um gato em curiosidades várias, decide beber o líquido da garrafinha de vidro escuro que estava na prateleira mais alta lá de casa. A sinalizar o disparate está um papel " expressamente proibido a menores de 18 anos" que não é vermelho nem nada, nem sequer tem o desenho de uma caveirinha, que lhe diga da toxicidade das escolhas.
Os lábios entreabertos esperam o movimento hesitante da mão, húmida e nervosa que antecede o paladar ácido do liquido que lhe irá escorrer da boca ao queixo e do queixo aos seios de menina, que se transformam em vontade.
Deve beber-se como uma ampulheta, lê-se nas instruções.
Alice sente o quente e a resposta, cresce e num minuto é maior que a casa dos pais. No seu delirio virginal, num transe de provocação aflita de quem se vê grande enorme e sozinho, desejável como uma lolita teimosa, cai num túnel onde as pequenas chaves voam como libélulas de feitiço cheias de post-its colados nas asas. Um diz: Corta os pulsos. Corta os pulsos, minha querida. O sangue é o único antídoto para o crescimento. O outro, aquele que lhe cai no colo: abre as pernas, mulher. Para eu te amar melhor.
E mais não conto.

Sexta-feira, Dezembro 17

Algibeira

a solidao é a moeda que guardo no bolso para comprar tabaco.

A respigadora

este corpo não é o meu corpo. é um corpo com um mes de trabalho magro seco, exausto. Pago ao peso da uva mijona, daquela que nem serve para fazer vinho carrascão. é um corpo em sintonia com as teorias deleuzianas, um corpo que rejeita a comida, a produção. um corpo que reage ao metal e à máquina. um corpo que não é de homem máquina. um corpo que só conhece o édipo e só por édipo se deixa estimular. é um corpo em sintonia com todas as teorias da exploração do homem pelo homem e da mulher pelo homem. este corpo não é o meu corpo. é um corpo cansado, que já não existe mais para ti.

Sexta-feira, Dezembro 10

carta de amor

Ah, então és tu.

Sexta-feira, Dezembro 3

a carta

o tempo foi passando e como tu explicavas tudo foi ficando bem. neste quarto estão três homens eu estou numa ponta flutuo como eles me deixam. eles acham que gostam de mim mas só gostam da minha capacidade de amar. porque eles só tem as minhas desistências. só amo nos inicios as possibilidades ilimitadas da relação. não gosto de peripécias e bloqueios pessoais à minha capacidade de amar. não gosto de nenhuma relação não quero ceder não quero escolher. quero que me escolham.

Quinta-feira, Dezembro 2

mosquinha morta

a) este blog é sobre o meu pipi. part__

os seus gostos e os seus hábitos:

primeira letra___
não gosto de fotografia e pretendo começar por deixar isto claro nas nossas almas. não gosto de pintura e muito menos de escultura. considero a arquitectura uma arte menor
a televisão o vídeo são a arte útil do nosso tempo mas também não gosto --- este facto é perturbante, tenho a certeza de que estes não gostos mariconsos me impedem de não ser catalogada no centro de emprego (e oh o social)--- descamba o texto as palavras saltam de árvore em árvore como os macacos [nota um não digo a página do livro porque sou uma mulher sem qualidades]não me interessa o suporte nem a pele e a carne. o amor não o entendo como acontecimento ou circunstância /nem tenciono. estar sozinha é amar o mais indecente que há em mim. gozo sozinha e consulto oráculos amorosos. tenho o melhor dos dois mundos na culpabilidade do amor.cansa o suporte agora que é sempre maquinal, não? só os sons têm belos adjectivos...só a aparência permite definição avultada de significados.... a linguagem objectiva é a linguagem do mito. a linguagem é mágica e não real. não se adequa em aparecer o que é mais que não se adequar ao real.o julgamento é que interessa e não a representatividade. a arte é democrática mas pouco social. assim escrevo sobre produtos e não sobre as suas embalagens. esse é o trabalho estético do meu pipi.não digo nome para qualificar amantes/nem amigos. baralho o eu a trote no trote das chuteiras dos outros. marco quase sempre golo quando me galam a mim. conto esta história e conto a história que também é a do principio.
se escrevesse um livro começava assim:


" na viagem lisboa______________________crato, o meu avô, exímio condutor, matou 14 aves (galinhas e patos) de forma a evitar os acidentes provocados pelas cavalgaduras do volante."

agora sem aspas : assumo o controlo digital e a responsabilidade artística tão cristã :

eis a posse

na viagem lisboa______________________crato, o meu avô, exímio condutor, matou 14 aves (galinhas e patos) de forma a evitar os acidentes provocados pelas cavalgaduras do volante.

a posse permite então decidir o futuro comunicacional da obra

na viagem lisboa______________________crato o meu avôexímio condutor matou 14 vezes aves galinhas e aves patos de __forma a evitar os acidentes provocados pelas cavalgaduras do volante

eis a palavra que possuo. e eis a palavra mito
a palavra com que se começa o livro
a palavra em que se começa o amor é avô.


já a seguir o amor dos pássaros e a minha passarinha depois


segunda letra_
o meu pipi sempre teve uma forte personalidade. eu sou a única mais inteligente que ele. a paranóia é a mais absoluta consequência da inteligência /não a insatisfação. porque as pessoas inteligentes são pessoas sensatas e razoáveis e nada há de mais sensato que admitir e perver (ter) as possibilidades. curiosamente isto é o mais alto grau de paranoia
ou vice versa. um insustentáculo de existir___é isto um cérebro.dentro das inumeras causalidades/casualidades que conseguimos pensar (eu e o meu pipi) raras vezes chegamos à possibilidade do altar romântico ou à entrega absoluta das realidades dos amados/amantes/amigos.o meu pipi gosta muito destas verdades.ou finge que gosta. ______ (macaco diz: os pipis modernos sabem fingir e assim se tornam dirigentes de associações em prol da caridade e solidariedade entre a espécie e os animais.)
não gosto portanto de virginia woolf. é a possibilidade mestra concluída e quando eu e o meu pipi não gostamos não há nada a fazer. a virginia era uma míuda com sorte devia ter bastante sexo e morreu-se-lhes (aos dois virginia e leonard) porque aceitar uma possibilidade, uma só categoria publicitária
( somos o reclame luminoso da nossa própria companhia Compª, como se o ser sozinho fosse sempre ser + qualquer coisa para o outro) /como dizia eu / lhe pareceu terrivelmente infantil ________quando somos pequenos gostamos de poucas coisas e sabemos do que gostamos menos do que sabemos porque gostamos. a escolha do gosto nasce dos ideais, nasce das vontades.eu por exemplo digo:
"há quem não goste de beijos"
e comunico ao amigo/amante/amado beijado:
eu não gosto de beijos a mais que o primeiro. ao primeiro vou sorrir como o arame da ratoeira util no rabo do rato. e na barataa seguir canso-me. como quando faço sexo e só gosto dos preliminares.e pouco dos beijos.
rapidamente :
acto de contrição a criação não existe. o que escrevo não faz sentido.

o amor cega a inteligência e é o único alivio do cérebro. o acto criador não é mais que uma conspurcação/um acto de confiança___ é um acto de amor de entrega parcial. virginia morreu cansada porque a paranoia instalou o amor total e a inteligência admite a possibilidade do para sempre.morre-se. para sempre virginia.
não gosto de ti assim amada porque o amor mata os inteligentes e aos outrinhos só moi.

a isto seguindo-se as múltiplas e vivaças personalidades do meu pipi ou depois disso


Querido Leonardo.

Aqui te espero.



como sempre