Aquele velho, quando eu era pequena, agarrava-me toda, nas fotografias, e ria ria grande como aquele ar que manda na luz e nas sombras que ficam caídas no chão, as folhas das árvores do Outono à primavera, umas vezes verdes ou assim assim, e aquela bela calçada, parada, branca, e os sorrisos feitos para a quadricula, o assim-assim dos quadradinhos de calcário,
e os trabalhadores ao sol, as calças usadas, como as dos padeiros, mas pelo sol das tardes, quente, e o suor que cai para regar a sombra das folhas no chão, e os fios que desenham o motivo, as pedras azuis e brancas e amarelas, num montinho, a montanha a lá, e os fios, calos, com cores e fumo.
Os joelhos das calças no chão, e as pontas dos sapatos antigamente com o pó, o pó dos dias. E as árvores, o sol nesta cidade, que nem é preciso, eu sei, mas as cores do chão e um bocadinho desta terra que não é castanha, é pó.
Passa o som nas passadeiras, enquanto os joelhos furam as calças e as unhas, os sapatos. As mãos com o sangue ligeiro das plantas e o ar que não se respira inspira, nada, e como tudo isto me lembra, oh lembra-me sempre a minha morte ou a tua, que são a mesma coisa num dia de calor.
As rodas entram pela cabeça, esquecem os sapatos, as camisas, a graxa para os sapatos, e os filhos e tudo, as mãos e nas pontas, os dedos, a máquina, o carro, os cardiologistas.
Eu paro, eu paro para ouvir a rua. Empoleiro-me nos parapeitos, espreito as janelas do prédio que se segue ou o barulho das caixas de registar da loja em baixo e esta praceta, parecendo que não, já não é aqui, é noutro sítio, eu sei, onde já não estou para abraçar mais ninguém ou dar aos pássaros como se estivesse no Rossio e todos fossem pombos ou milho.
Aquele velho, quando eu era pequena, amarrotava-me o debrum de renda inglesa dos vestidos, agarrava-me, os dedos roxos, e sorria para a fotografia, agarrava-me como se eu fosse uma árvore para crescer nos braços. E eu não.
Fumo fumo fumo para ver se morro mais depressa.
Aproximei-me da janela para ver do desiquilibrio das alturas entre a minha vontade e o meu corpo desfeito e velho como uma planta murcha lá em baixo. Não chega.
Uma das vantagens do progresso é esta equitativa disposição de possíveis, Os prédios altos facilitam as grandes quedas, os carros estacionados amortizam-nas, os seguros pagam os estragos.
Vou la abaixo ver da gravidade da calçada, da sua organização quase perene. Quadrados brancos, quadrados amarelos. Alcatrão que pode fazer mal aos joelhos.
Os cigarros calcam-se como se fossem bichos.
A vida quando se dá é necessariamente porque se tem de morrer.
Não escrever quando é necessário, dá uma dor fina no antebraço.
Sente-se a veia que liga os ossos ao musculo ao pegar na caneta, e mesmo quando não se está a pegar nela, mais até assim, ou de outra maneira. Um hábito, um tira teimas do corpo contra as variações da realidade, as contradições que pudemos resumir até ao essencial, enumerados os princípios no orgulhoso silêncio da inteligência.
Pode sentir-se o pulso da escrita, a afirmação física da tentativa pessoal, que arruma por ordem de aproximação os objectos do intimo, do que está ainda para lá, ou é realmente isso mesmo.
Penso penso sempre, e sinto o pulso.
sabemos cada vez menos de pontuação, o sustentáculo sempre teve essa mania de impor o seu certo estilo de limitações na vulgaridade da linguagem,
De tudo isto as escondidas. por entre os espaços , tem-se falado.
As pilhas de panelas parecem livros.
Os alimentos cozinham-se a vapor como os comboios mas não sofrem de horários.
A boca serve para mastigar mas as palavras saem inteiras.
Não se pode encontrar descanso antes de se encontrar uma espécie de solução soluço.
So-lú-vel
O sol na fotografia parece-me que é só luz.
Às vezes na rua, no meio dos carros e demais parafernalia velocípede, vejo um rabo que dança , como se uma serpente habitasse o lado de dentro das calças para não dizer cuecas, que podia parecer ordinário. Eu , eu escrevo para que se arquive e depois vou lavar a loiça. Estragar o verniz das unhas, que gosto tanto de pintar.